GATO ESCALDADO

esconde-esconde

I.
Fui nascido para o razoável,
coisas imbecilizadas.
Pródigo tamanho nada:
invisível tapando o olho.
Simbiose pré-sibilada
– a poesia escolhe,
à poesia encolho.

II.
Vim à luz com paranças.
As mãos redecoradas de
amora a marcar o frêmito,
instante-folhagem.
Plantado de palavras
a colher o fruto sonho,
versus-imagem.

PENÚRIA

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Despidas as máscaras,
o riso obsceno é
sempre o mesmo.
Nenhum festejar
a esmo – sopro,
lira, cítara esconde
a tácita verdade
das entrelinhas:
tateia-se superfícies,
nenhum coração
assombrado
aninha-se.

NARRATIVA

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Gustav Vigeland. Eros e Psique (1908)

I.
Busquei o equívoco: igual outros quis
glórias patéticas, como se qualquer
paixão fosse ponto de unidade.
Por sorte soube apenas do
caminho deflagrando-me
degredo, alteridade.

II.
Não cabem-me nos dedos
os amores platônicos.
Venero apenas esse
desejo desenfreado:
amar por amar
sem ensejar
ser amado.

III.
A incompletude é minha única glória.
Verdade à qual habito.
De todo amor narrado,
medito arestas arquétipas,
retiro apenas as lições
do mito.

TINO

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Acaso pudesse cochichar conselhos
ao jovenzinho Lucas aspirante
a poeta diria: então tá, mas por
enquanto faça qualquer
outra coisa, poupe-se da
palavra sem cabimento.

Os seus olhos são ainda sem
qualquer fermentação,
faltam-lhes o trigo de
uma derrota veraz.

Antes de dar de quebrantar
o óbvio, aprenda a escutar.
Procure o silêncio tímido
por detrás da mente a
ricochetear instantânea.

Retire o peso, lã sintaxe,
vogue cotovelos barrentos
de vocábulo virgem.

Esgueire-se adilico pelo lençol
da intertextualidade: se fogo
arde sem se ver, é preciso
do olfato da audição
para contornar sinais
de fumaça.

NONSENSE

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O caldeirão borbulha ininterrupto.
Como esquete do Monty Phyton
qualquer boa imagem termina
num abrupto corte.

Os espectadores mantidos reféns
da eterna promessa de poda na raiz
assistem vidrados à espera
do punchline.

E sobra somente o riso enrijecido.

Riso desesperado de quem já não
reconhece os seus motivos,
mas sente esse impulso.

Uma fome imensurável de compreensão:
desconhecer exatamente em qual ato
terminará queimado o
próprio rosto.

QUIMERA

despercebido, Lesley Oldaker, óleo sobre a tela

(Imagem: Despercebido, Lesley Oldaker, óleo sobre tela, 2018)

I.
Nenhuma palavra simboliza-me
melhor que em sonhos
os seus olhos.
Os sonhos nos quais se embalam
os dias & fazem meus pés
arriscarem passos por
impulso próprio, contra
minha vontade, numa
melodia inaudível
– o sonho
impossível.

II.
Persigo-a assim, onírica.
Imagem à qual eu possa
cercar por doces palavras
para aliviar o choque.
Onírica, eterna projeção
a evaporar-se instantânea
na tentativa do toque.

III.
Convido-na, solidão, para esta valsa.
Dou-lhe todas minhas tripas,
escancaro-me.

Dança sobre este falso verso triste,
enquanto confesso alguma
dor mesquinha.

Convido-na, solidão, para esta valsa.
Além dos olhos-fábulas e do poema
que se aninha.

Convido-na, solidão, por ser tão
sempre minha.

BULA

Mario Quintana , por Borges
(Mario Quinta, por Borges)

A fila de almas fadigadas e reclamonas,
com senhas de números intermináveis,
dobra além de Órion.

São Pedro esqueceu-se dos portões do paraíso,
sentado aos pés de Quintana, deleitando-se
com seus versos fantasmais.

Deus tem toda eternidade, azar de quem
apressou-se em morrer.

Quando o tempo é de poesia, eis o melhor
a ser feito: manter-se de ouvido atento
&
vivo.