COMO SE TORNAR UM POETA BEM SUCEDIDO

matamos

1.
Teoria do poema quântico:
Terpsícore e a necessidade do cortejo.
De flores. Correio elegante.
O verso coçando em descrição,
pareidolia na cicatriz.
Não se arranca poesia das coisas.
Somente o cuidado tomba minúcias.
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2.
É possível tornar-se poeta!
Antes, porém, arrastar a cara
pela lama.
Tornar a miséria benquista,
tê-la familiar.
Antes, porém, abraçar
a completa angústia e o vazio de ser
sem a tentação de zelar
por “uma imagem”.

3.
A miséria como matéria-prima.
O ócio como pódio.
Qualquer rima vale
nesse tudo pode.
Nenhum poeta sobrevive
aos anúncios.

4.
Oficina de Criação Literária: Poesia-de-Internet
Ministrada pelo Poeta Lucas Luiz By Lucas Luiz

O curso crème-de-la-crème da mesmice!

O mais abrangedor em: Ansiedade. Depressão.
E outros quadros clínicos em voga.
A grande cama elástica da infância.
Se eu pudesse lhe dar uma dica
seria essa: use filtro solar.
Tenha máquina de escrever.
Web-Decepções. Autoajuda barata.
Anúncio da boa-nova.
Cigarros. Bukowski. Cerveja.

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NEURA

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Naquela manhã acordei sentindo-me apto a incursionar na literatura. Havia lido um volume bastante razoável sobre animais em risco de extinção, mais ou menos duas metades de artigos em blogs, deixando minha mente em completa profusão. A inspiração avizinhava-me querendo espaço, embora tivesse pouca familiaridade com Uacari-Branco ou Udu-de-Coroa-Azul, conhecia a predileção de Douglas Adams por bichinhos nessas condições e todo o mundo apreciava seus livros. Além do mais, vira recentemente dois vídeos longos, quase três minutos cada, sobre o Oumuamua e passei a considerar muito plausível, dadas as pesquisas em sites conspiratórios extremamente confiáveis, a ideia de se tratar de um artefato alienígena.

Meus lábios mal terminaram de proferir Barnard, Lara já se percebia alheia ao assunto. Por vir, uma enxurrada de referências astronômicas, com datação imprecisa e repleta de detalhes intermináveis. Há tempos parecíamos viver distantes, por ironia, em pontos ínfimos do cosmo. Ou da sanidade. Qualquer tentativa de aproximação sucumbia à relatividade.

Ou realidade.

— A segunda estrela mais próxima da nossa; apenas Alfa Centauro encontra-se entre ambas. Quando criança – prosseguia com empolgação – pensava as estrelas de outra maneira, corpos celestes distintos ao Sol, aqueles pequenos cubinhos brancos grudados ao céu semelhantes aos desenhos das aulas de artes, com pontas e tudo mais.

— Você tem uma obsessão pelo céu, né? – escolheu as palavras – Acredita ser capaz de compor algo relevante?

— Creio ser uma maneira eficiente de suscitar perspectiva. – refleti instantes sobre o questionamento – Qualquer idiota faz ficção.

— Perspectiva sobre?

— Uma das questões fundamentais: a existência de modo geral. O infinito tem o poder de nos jogar às traças. Que significa o homem em escala cósmica? Micróbios?! Então, resta-nos aceitar a insignificância de sermos essa coisa meio amorfa.

— E isso não tornaria todo o resto total perda de tempo?

— Claro.

— E qual a necessidade de escrever sobre animais de estimação voando em naves estelares?

— Surrealismo.

Lara ameaçou elaborar uma resposta, desistiu. Lembrou-se da frase de sua mãe: com louco não se discute. O alerta específico de sua progenitora sobre o casamento, de maneira bem peculiar, também, ou principalmente, à escolha do cônjuge, ressoou sobre os tímpanos. Deu de ombros. Afinal, poderia justificar-se; a genialidade corre risco de descambar. E melhor alguém assim, meio paranoico, porém real, do que o homem perfeito preso dentro de telas. De mais a mais, amanhã a neurose seria outra, ninguém deseja padecer literando, eu hei de me meter com pintura ou escultura. Talvez até pintando o Uacari-Branco e o Udu-de-Coroa-Azul. Ou, aquele cara alto de nariz longo que tinha composto uma saga sem enlouquecer por completo.

AFORISMOS

Figura-6-A-morte-de-Socrates-Jacques-Louis-David-1787-Oleo-sobre-tela-129-196-cm.png(A morte de Sócrates. Jacques-Louis David)

I.
Existem ideias realmente tentadoras nas quais nossas amarras morais parecem afrouxar. Os ursos negros, por exemplo, hibernam de cinco a sete meses por ano. A ideia de seguir o processo, porém, apenas inviabiliza-se na localização de sua origem; os Estados Unidos. Arthur, como se sabe, significa “grande urso”, e quando alguém com longos dedos aponta os riscos de começar a beber as nove da manhã, a resposta surge categórica: em algum lugar da Ásia já são nove da noite. Conquanto seja fato irrefutável a questão do horário, digamos, no Japão; até mesmo o anseio por dominar a arte do sono sucumbe por transtornos meramente geográficos. Ou de batismo. Sem nenhum outro dom assegurado resta uma espécie de traição por parte do Esopo. Afinal, numa das fábulas afirma-se, com todas as letras: não há ninguém completamente desamparado de natureza e sem graça particular. Embora eu carregue alguma maestria em inutilidade.

II
Nietzsche afirmou existir um juízo característico de negação do valor da vida em todos os sábios. Ora, se minha experiência corrobora com algo, certamente é isso. A intelectualidade parece-me uma festança no Olimpo. E eu, pobre penúria, longínquo, circundo os portões atrás das migalhas. Mas sei que sei raciocinar. Hoje mesmo já havia, com antecedência, por exemplo, pensado em almoçar. Não somente na ação, mas também nos seus: arroz, feijão, purê de batata e filé de frango. Veja bem, escapa-me a familiaridade sobre o pensamento de Nietzsche em relação à filés de frango, entretanto ponho-me confortavelmente favorável. O grande problema de Sócrates, a amarra na melancolia; talvez previsse os seus instantes finais, o grande equívoco no pedido derradeiro: ofertar um galo para o deus Asclépio ao invés de saboreá-lo.

LAMBIDA

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1.
Orbito o abismo
do não-lugar.
A língua.
Onde qualquer
fronteira
míngua.

2.
                        p/ Erika Harumi

Num sonho inexato,
de traço abstrato,
algo ou alguém,
qualquer um
não sei quem
nem uma coisa
nem outra e nem;
& no sonho,
permanecendo
a língua,
o limite entre
aquém e além,
para na carne
sempre
reconhecer-se
porém.

3.
num planeta espelho
há o Lucas feliz
nem parece parelho
esse outro eu
mesmo tacanho
não como me fiz
nada de poeta
nada de Lucas Luiz
eu, aquele estranho…

SÚPLICA

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Quero-me nu, assim, lúcido,
como o primeiro poema.
Costela-de-Adão: um silêncio
doloroso de carne exposta.
Quero-me outro, e outro,
e outro, morto por súbita
adoração, cânone pálido
tamanho esquecimento
em vida.

MIL FACES

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1.
Eis aqui uma excelente data
para a morte: depois de amanhã.
Inda hoje acordei
com o verso liso de vida
colado sem qualquer credo
na palma da mão.

2.
Ser poeta menor não vale
o trabalho de sê-lo.
A beleza merece a labuta
completa dos músculos.
Mais vale o descanso da tez.
Deixar fecundar o silêncio
até gerar a presença das
rosas como um soluço.

3.
Sonho a ternura da solidão oportuna.
A lua esparramada nos olhos.
O espírito sem necessidade
de símbolo.
E alegro-me quando desnudo
de mundo, por nada esperar
senão vertigem.