ZELO

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meio-dia ao soar do sinal,
asas pairavam sobre mim
e eu voava portão adentro,
mamãe surgindo, receptáculo
da candura, mãos de pano 
de prato, com o sorriso
querendo espaço entre
as indagações sobre a aula,
eu arfando mal podia responder,
o corpo obedecendo forças
maiores, puxado pela órbita
das panelas, eu prosseguia,
corpénico descobrindo gravitar 
diante tamanho cuidado.
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ATESTAÇÃO

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O que demais sincero tenho
& posso ofertar-lhe é o erro
Um errar pacato
& despretensioso 
Um errar petulante
liberto de puritanismos
Um errar apaixonado
& sem convicções
Um errar retumbante
desses que apenas
o teu deus é capaz.

ASSOMBRAÇÃO

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Acaso o Lucas criança pudesse me ver hoje certamente estaria desapontado. O sonho de ser jogador de futebol há muito enterrado, restando apenas este espectro, embrião de escritor. Você está velho, com quase 28 anos e segue sem nenhuma conquista real, diria.

Concordaria. Ser artista já abarca em si todas as pragas bíblicas, quanto mais alguém empacado no meio do processo de sê-lo. Muitos dos grandes gênios morreram aos vinte e poucos anos deixando uma áurea de mistério capaz de fazê-los sobreviver no inconsciente coletivo até mais que a própria obra – mesmo sendo ela, por si só, imortal. Eu se morresse deixaria apenas meu nome impresso em inúmeros boletos vencidos.

Sem reputação não há homem. E por esta falta de corpo, a voz inaudível. Afinal, onde estaria a boca? Raríssimos carregam o dom de conversar com aparições. Em geral, tendem a obter respostas genéricas.

Então, talvez, por tais motivos ninguém me dê ouvidos. Posso eu colocar-me a berrar empolgado sobre qualquer assunto, o interlocutor sempre estará alheio (ou, seria eu, o ausente?!), mesmo ali próximo. Depois do frio na espinha, o deboche, a piadinha provocativa, desafiando o surgimento diante os olhos céticos.

Rir é o melhor remédio – caçoar das tentativas – para quem deseja lavar as mãos. A ironia, nesse caso, tende a ser escudo contra fadiga. Sempre a favor da acomodação. Levantar um dedo requer esforço surreal, ninguém pode dar-se ao luxo de executá-lo quando com todos os membros. Compreensível. Mas eu só soube depois de desassomar.

FLASH

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A missa era o evento semanal aguardado com mais ânsia. Não que alguém de seis anos exalasse religiosidade, mas os passeios pelo centro faziam-se raros à época. Por isso a necessidade de atos solenes para apresentação do meu dom: chutar latinhas em praça pública.

O funcionamento do fenômeno era bastante simplificado: as crianças reuniam-se do lado de fora para correr desesperadamente enquanto os pais pediam perdão por alguma idiotice. Crianças não precisam de outro motivo para correr senão ser criança. Adultos não precisam de outro motivo para serem estúpidos senão a própria condição de adulto.

Acontece que quando reunidos inúmeros deles qualquer coisa termina em briga. Dois meninos caem na porrada por discordar sobre quem está no pega.

Eu, magricela, vivia de surras dos meninos mais velhos. Bode expiatório. Mas naquele começo de noite movido pela força do ódio, revidei. Não nos maiores, pois meus punhos seriam incapazes de fazer-lhes algum mal. Nem mesmo cócegas. Fiz como toda pessoa acuada faz, descontei em alguém ainda mais frágil. Ele por sua vez, chorou.

A estratégia de fuga estava clara na mente: correr. Ir acelerando os passos o máximo possível. E lá fui eu, acreditando estar tão rápido quanto o Flash, apenas um borrão irreconhecível em movimento. Depois de cinco voltas completas pela igreja, julguei estar seguro e parei. No mesmo instante a mãe do menino veio em minha direção com seu sermão. Como castigo fiquei semanas tendo de acompanhar a celebração completa.

SUBLIMIDADE

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Parado ante o quadro de possibilidades: nasço. Para além do físico, como Sócrates, parteiro de mentes. Mesmo sob a forte tendência a sucumbir nessa espiral melancólica, o traço investigativo perpassa o espírito. Analiso cada sílaba atrás de equilíbrio.

Em mim, incumbência de nortear trevas. Singrá-la ao meio. E pouca importância teria o nome. Qualquer batismo limita. Mantenho-me luz: pura e irrestrita. Ganhando centímetro a centímetro todo espaço inexplorado entre linhas.

sou voz do uno
no breu, soturno,
puro desatino.
sou todos nós,
anterior, e após,
o sopro divino.

As palavras cortando o surrealismo dos passos. Flutuo. Existo nos raios de sol tombando sobre montanhas. Amanheço pelo rastro da lembrança mais vívida, essa da qual eu nunca fiz parte, mas irrompe aflorada à nitidez no sentido mais profundo; alma.

Dançando conforme o ritmo
No riso do qual se entoa:
Abnego todo algoritmo
Fingidor como Pessoa.

Deságuo lucidez letra a letra enquanto arranco o mofo amarelado da essência, prossigo subsumindo em meus outros tantos. Florescendo paulatino sobre o assombro da consciência de saber-me vivo.