NEURA

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Naquela manhã acordei sentindo-me apto a incursionar na literatura. Havia lido um volume bastante razoável sobre animais em risco de extinção, mais ou menos duas metades de artigos em blogs, deixando minha mente em completa profusão. A inspiração avizinhava-me querendo espaço, embora tivesse pouca familiaridade com Uacari-Branco ou Udu-de-Coroa-Azul, conhecia a predileção de Douglas Adams por bichinhos nessas condições e todo o mundo apreciava seus livros. Além do mais, vira recentemente dois vídeos longos, quase três minutos cada, sobre o Oumuamua e passei a considerar muito plausível, dadas as pesquisas em sites conspiratórios extremamente confiáveis, a ideia de se tratar de um artefato alienígena.

Meus lábios mal terminaram de proferir Barnard, Lara já se percebia alheia ao assunto. Por vir, uma enxurrada de referências astronômicas, com datação imprecisa e repleta de detalhes intermináveis. Há tempos parecíamos viver distantes, por ironia, em pontos ínfimos do cosmo. Ou da sanidade. Qualquer tentativa de aproximação sucumbia à relatividade.

Ou realidade.

— A segunda estrela mais próxima da nossa; apenas Alfa Centauro encontra-se entre ambas. Quando criança – prosseguia com empolgação – pensava as estrelas de outra maneira, corpos celestes distintos ao Sol, aqueles pequenos cubinhos brancos grudados ao céu semelhantes aos desenhos das aulas de artes, com pontas e tudo mais.

— Você tem uma obsessão pelo céu, né? – escolheu as palavras – Acredita ser capaz de compor algo relevante?

— Creio ser uma maneira eficiente de suscitar perspectiva. – refleti instantes sobre o questionamento – Qualquer idiota faz ficção.

— Perspectiva sobre?

— Uma das questões fundamentais: a existência de modo geral. O infinito tem o poder de nos jogar às traças. Que significa o homem em escala cósmica? Micróbios?! Então, resta-nos aceitar a insignificância de sermos essa coisa meio amorfa.

— E isso não tornaria todo o resto total perda de tempo?

— Claro.

— E qual a necessidade de escrever sobre animais de estimação voando em naves estelares?

— Surrealismo.

Lara ameaçou elaborar uma resposta, desistiu. Lembrou-se da frase de sua mãe: com louco não se discute. O alerta específico de sua progenitora sobre o casamento, de maneira bem peculiar, também, ou principalmente, à escolha do cônjuge, ressoou sobre os tímpanos. Deu de ombros. Afinal, poderia justificar-se; a genialidade corre risco de descambar. E melhor alguém assim, meio paranoico, porém real, do que o homem perfeito preso dentro de telas. De mais a mais, amanhã a neurose seria outra, ninguém deseja padecer literando, eu hei de me meter com pintura ou escultura. Talvez até pintando o Uacari-Branco e o Udu-de-Coroa-Azul. Ou, aquele cara alto de nariz longo que tinha composto uma saga sem enlouquecer por completo.

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