ALVA

tumblr_p0ejvcbTkB1t5ar4to1_540

p/ Gabriela Souza

1.
Tomo em mãos
esse combustível:

a leveza do seu
semblante,

sublime inequívoco,
graça indizível.

2.
Entre as nuvens
o teu riso
surge,

muito além
de simples
pareidolia.

Entre as nuvens
teu riso
transborda-me
noite e dia.

3.
Prometo-lhe
o gesto,

as simples
funções das
palavras

reconduzindo
todo resto.

GRATIDÃO


Platão-post-700x400.pngNum conto Voltaire narra a pequena afronta de
um discípulo de Platão insinuando-o sonhador.
O mundo das ideias talvez seja metafísico em demasia.
Digo: quem se dá ao luxo
de procurar pérolas além da casca?
Diógenes, o cão, num ato bélico atirou contra
a Academia de Platão um frango depenado.
Seria mesmo o bípede semelhante ao homem?
A zombaria recaiu sobre grandes gênios.
A minha, meu Deus, como poeta,
ao menos é merecida.

INSUFICIÊNCIA

098534681a4575843031da6aa7e05c93.jpg

Eu conheço bem o que pensam,
sempre soube: minhas costas largas
carregam como fardo
mil chicotadas com línguas.
O desdém dos olhares aguçados
e os sorrisos distraindo-se
dos meus.

Sou incapaz de armar
absurda eloquência,
pois tudo que digo parece
sempre tão sem importância.
Parece com latir, grunhar.

E tudo que você pensa é:
alguém pelo amor de Deus
leia essa melancolia em braile.
Alguém pelo amor de Deus!

Tranca-se no casulo da poesia,
bebe gotícula a gotícula
cada dia mais satisfeito
em se trancafiar, ridículo,
refém das palavras.

Há desespero em se olhar no espelho
e enxergar-se cacos: você não sabe
exatamente o que é,
sem imagem a sustentar altares.
O homem na encruzilhada.
O Mito sempre prestes a ser.
Arquétipo: alvo pronto
para dedos apontados.

O rosto em carne viva
arde arde arde arde
arde toda vez que
voltam-se para si.

E tudo que você deseja
é a permissão da
providencia divina,
o milagre instantâneo
do antigo testamento,
tornar-se sal para
fundir-se em terra.

Até a matéria sucumbir,
até a matéria sucumbir,
até a matéria sucumbir…

Fundir-se pó estelar
desejando ardentemente
adubar outra existência
e tudo que pensa é:
alguém pelo amor de Deus
ordene o caos &
faça-me primevo além
desse buraco negro.

PARANÇA

menicarros.jpg

A minha paixão infantil tinha nome composto.
Depois reduzida a Malu. Nunca deu-me oi.
Às vezes saía por um triz, no reflexo dos olhos.
Eu abobecia felizinho.
Minha primeira paixão jamais dirigiu-me
um vocábulo completo.
Santa Malu de nenhum adjetivo.
Malu impraticava palavras comigo,
Malu não dava mesmo indícios
de maluca.

A BARCA

Capricornio.jpg

1.
Alguém disse-me: seu signo é de terra.
E eu tomei riso.

Menino conseguia até flutuar:
inventava ruas,
inventava disputas,
inventava seres.

Os signos dispensam raízes,
os signos ventam…

2.
Signo de terra é o escambau.
Cabra com rabo de peixe.

Desde miúdo saúdo as coisas
como fossem outras.

Nem sabia de Manoel
e já era dado ao nada.

3.
Com dois tijolos fiz casas.
Com aqueles dois tijolos fiz gols.
Com os mesmos dois tijolos dei-me
inúmeras construções.
Do barro, plurifiquei a vida –
mais que o signo
minha rua era terra, era cheiro,
era o mundo inteiro.

PORTE PIETRO PORTE

dida santos 1486

há o nome em várias línguas
os nomes análogos
numa liturgia particular

mesmo quando desconhece Petro
desdobramento suaíli
mesmo em sua própria língua
essa de extensão ainda
impenetrável

o olhar Pietro o olhar
precisa se alinhar
às formigas
senão padece torpe

o pé preto Pietro
o pé preto lega porte

aprender o nome livre de etiqueta
sujá-lo com a candura de quem
compreende o corpo –
um testemunho de fé

INCURÁVEL

infancia-creando-pompas-jabon.jpg

Certa vez quando brincava
com uma bolinha contra
a parede sem reboco
fui atacado por um grão.

Doença incurável –
viria descobrir há muito.

Meus olhos insistem
em germinar essa sobra
da infância.

Por isso a poesia:
sou incapaz de suportar
a perspectiva de
mundo arranhado.