BICHO DE SETE CABEÇAS

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Muitas das vezes penso
em falar de Deus.
Mas não cabem-me
as liturgias.
Retrato-me com os
versos de Adélia Prado
e sigo meu próprio
destino.

Quando em quando
sinto o impulso de
auto-digladiação
e digo: Adília tem
mesmo razão, com
fogo não se brinca.

– criado o personagem
vem a assinatura:
Adília Prado.

Este monstro de
várias cabeças
sem qualquer
sentença.

POEMINHA PARA ACOMPANHAR DOCUMENTÁRIOS SOBRE VIDA EXTRATERRESTRE

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p/ Gabriela Souza

Os olhos estrelados a
alimentar-me porosmose

Olhos-clarão cruzando
todo este sistema

O calor da sua sílaba
exata
vivifica corpo-infinito
do poema…

MAPA

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I.
Estender-me
pelos rastros
dos grãos,
erigir por este
abismo
até
circundar
o amor psi-quê
cismo…

II.
Esgarço as linhas
fronteiriças
dessa boca-eros
castiça

III.
nenhumelemento

as mãos
vazias
aqui & agora

nenhumalinha
nenhumazinha
nenhumaminha

a pena
à quilo

caixa de
pandora

valha-me
tamanha
demora

PALINGENESIA

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Tornar-me digno das palavras
de algum futuro Heródoto
e deixá-lo empilhando ossos
sem datação exata.

Aceitar de bom grado perder
poemas um a um…

Como quem, por iluminação,
reconhece a necessidade vital
das borboletas em alçarem-se
depois de pousadas
nos dedos.

MÍMICA

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Anterior ao desejo desenfreado de autenticidade encontra-se o tempo sombrio da busca por aceitação. Naquele início de milênio, porém, todo meu conhecimento resumia-se a um bairro e uma escola. Incapaz de assimilar o significado da palavra genuíno.

Entre as disputadas partidas de futebol pela rua, dedos perdendo o tampão, colocava-me observando as minucias dos gestos daqueles colegas dos quais as meninas demonstravam algum apreço. Raridade em meio aquele ciclo de amizades. Mas eu precisava descobrir uma forma de agradar. Obviamente, distante do roer unhas, gaguejar e permanecer avermelhado num estado de riso idiota de total incompreensão.

Fosse como fosse, o charme deveria poder ser aprendido. Testemunhava deslumbrado, diálogos complexos sobre festinhas, encontros para assistir filmes em vídeo cassete, cumprimentos com beijinhos no rosto. O enigmático mundo além do alcance. E sonhava receber o convite que mudaria a vida miserável de rejeição.

Repetia siglas indecifráveis, como cdf ou bv, estufando o peito e tentando demonstrar uma confiança inexistente. Embora enturmasse com os populares, usufruísse da mímica, tudo desmoronava no menor questionamento. O plano minucioso para conquistar as mais gatas da quinta série empacava num detalhe ínfimo: eu ainda era eu. E elas faziam questão de apontar para este fato.

ALVA

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p/ Gabriela Souza

1.
Tomo em mãos
esse combustível:

a leveza do seu
semblante,

sublime inequívoco,
graça indizível.

2.
Entre as nuvens
o teu riso
surge,

muito além
de simples
pareidolia.

Entre as nuvens
teu riso
transborda-me
noite e dia.

3.
Prometo-lhe
o gesto,

as simples
funções das
palavras

reconduzindo
todo resto.

GRATIDÃO


Platão-post-700x400.pngNum conto Voltaire narra a pequena afronta de
um discípulo de Platão insinuando-o sonhador.
O mundo das ideias talvez seja metafísico em demasia.
Digo: quem se dá ao luxo
de procurar pérolas além da casca?
Diógenes, o cão, num ato bélico atirou contra
a Academia de Platão um frango depenado.
Seria mesmo o bípede semelhante ao homem?
A zombaria recaiu sobre grandes gênios.
A minha, meu Deus, como poeta,
ao menos é merecida.