EXATIDÃO

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Nessas tantas de nos fazermos múltiplos, detalhes vão escapando, pois os fios da memória esgarçam-se instantâneos e flutuam sem direção no abismo das ações abandonadas. Contudo, vez ou outra, ressurgem imagens vívidas diante os olhos, como se sopradas por alguma entidade e cai sobre nós a sensação de recolher emoções remotas nas mãos.

Por exemplo, dei-me conta dia desses: já fui extremamente alfabetizado nos números. Sabia-os em grande escala (graças a paixão futebolística e a numeração estampada pelas camisetas), proporção maior que outros alunos do Jardim I. A professora Maria Ivone ensinava-nos do um ao nove, mas apenas eu conseguia ir além das unidades. Caminhava sobre onde as dezenas surgiam belas, impávidas. No desabrochar dos algarismos siameses.

Demonstrar-me súbito gerou certa perplexidade, discutiu-se caminhos para evitar balbúrdias, potenciais transtornos, até sugerir-se o encaminhamento a uma profissional para possível aprovação de progressão imediata. Dos incontáveis testes não lembro de nada. Apenas trago comigo a imagem da sala cercada por vidros, o sofá preto e a psicóloga deslizando sua caneta com frequência enquanto balançava a cabeça de modo condenatório.

No dia seguinte, completamente despreparado, terminei conduzido ao Jardim II. Lá estava eu entre os gigantes alunos de cinco anos. Qualquer reação deveria ser pesada em minúcias, infortúnios poderiam marcar a vida escolar para sempre. Ou, pelo menos, enquanto no pré-primário. Minha resposta foi coerente com a coragem existente em mim: chorei. Choro de soluçar até ser devolvido ao lugar de origem. Aonde todo mundo tinha quatro anos e contava até nove. Nasceu aí a desilusão matemática.

Os gatilhos das lembranças são irônicos; esta mesmo reluziu sobre mim através do reflexo de Clarice Lispector, num relato sacro sobre a sua infância também precoce. Não tão aritmética assim. Embora ambos, frequentemente, multiplicássemos lágrimas.

CASA DE APOSTAS

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Nada sabia à época sobre realidade espelhada. Exceto a existência da Ásia: terra do contrário. Os atlas da aula de geografia, porém, maquiavam informações tornando-o idêntico aos demais continentes. Mas em nenhum outro lugar – dedução espontânea – o sol punha-se a pino em plena madrugada.

A Copa do Mundo confirmava minhas hipóteses ao me obrigar acordar ainda dentro da escuridão para assistir os jogos.

Ali próximo as oitavas de finais, a professora de educação física (também suspeita no grande complô) sugeriu um bolão da quinta série A. Bastando conduzir os vencedores até os lugares mais altos do pódio.

Um inveterado apaixonado por futebol de onze anos como eu, dono da capacidade cognitiva de enxergar as migalhas da grande conspiração – toda a dificuldade de se colorir mapas – jamais sucumbiria ao senso-comum.

Abstraído, em transe mediúnico, convencido da nitidez do fato, iniciei meu exercício de futurólogo mergulhado na verdade absoluta contida nos ancestrais ensinamentos do oriente (os quais desconhecia): sorteei os vencedores como abrindo biscoitos da sorte. E deu Coréia do Sul. O sinal celestial da aposta certeira.

Marquei, peito estufado, o lance mais ousado contra corrente de pensamento vigente no primeiro ano de Ensino Fundamental II. Exercício de epifania: para marcar geração na escola Ivan Brasil seria assim. Jogando alto. E na direção contrária ao vento. Sempre. Muito embora minha formação chegasse anônima.