MÍMICA

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Anterior ao desejo desenfreado de autenticidade encontra-se o tempo sombrio da busca por aceitação. Naquele início de milênio, porém, todo meu conhecimento resumia-se a um bairro e uma escola. Incapaz de assimilar o significado da palavra genuíno.

Entre as disputadas partidas de futebol pela rua, dedos perdendo o tampão, colocava-me observando as minucias dos gestos daqueles colegas dos quais as meninas demonstravam algum apreço. Raridade em meio aquele ciclo de amizades. Mas eu precisava descobrir uma forma de agradar. Obviamente, distante do roer unhas, gaguejar e permanecer avermelhado num estado de riso idiota de total incompreensão.

Fosse como fosse, o charme deveria poder ser aprendido. Testemunhava deslumbrado, diálogos complexos sobre festinhas, encontros para assistir filmes em vídeo cassete, cumprimentos com beijinhos no rosto. O enigmático mundo além do alcance. E sonhava receber o convite que mudaria a vida miserável de rejeição.

Repetia siglas indecifráveis, como cdf ou bv, estufando o peito e tentando demonstrar uma confiança inexistente. Embora enturmasse com os populares, usufruísse da mímica, tudo desmoronava no menor questionamento. O plano minucioso para conquistar as mais gatas da quinta série empacava num detalhe ínfimo: eu ainda era eu. E elas faziam questão de apontar para este fato.

CASA DE APOSTAS

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Nada sabia à época sobre realidade espelhada. Exceto a existência da Ásia: terra do contrário. Os atlas da aula de geografia, porém, maquiavam informações tornando-o idêntico aos demais continentes. Mas em nenhum outro lugar – dedução espontânea – o sol punha-se a pino em plena madrugada.

A Copa do Mundo confirmava minhas hipóteses ao me obrigar acordar ainda dentro da escuridão para assistir os jogos.

Ali próximo as oitavas de finais, a professora de educação física (também suspeita no grande complô) sugeriu um bolão da quinta série A. Bastando conduzir os vencedores até os lugares mais altos do pódio.

Um inveterado apaixonado por futebol de onze anos como eu, dono da capacidade cognitiva de enxergar as migalhas da grande conspiração – toda a dificuldade de se colorir mapas – jamais sucumbiria ao senso-comum.

Abstraído, em transe mediúnico, convencido da nitidez do fato, iniciei meu exercício de futurólogo mergulhado na verdade absoluta contida nos ancestrais ensinamentos do oriente (os quais desconhecia): sorteei os vencedores como abrindo biscoitos da sorte. E deu Coréia do Sul. O sinal celestial da aposta certeira.

Marquei, peito estufado, o lance mais ousado contra corrente de pensamento vigente no primeiro ano de Ensino Fundamental II. Exercício de epifania: para marcar geração na escola Ivan Brasil seria assim. Jogando alto. E na direção contrária ao vento. Sempre. Muito embora minha formação chegasse anônima.