TRAQUEJO

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Antigamente acreditava no beijo certeiro do destino. Dentro do peito todos os clichês existentes. Precipitava-me crendo na possibilidade de um amor bobinho, genérico. E assim dava vazão às frustrações.

A vida ensinou-me, com a delicadeza de um rolo compressor; limpas as areias da automatização, é possível palpar rumos.

Desde então travo a batalha diária com a desconstrução de expectativas: mereço o outro apenas como pode ser. Carne e osso. Construído através de tentativa e erro. Longe da figura onírica, o rosto amorfo da perfeição inalcançável.

O inebriar verdadeiro, maduro, transcende qualquer áurea de ilusória grandeza. Quer-se alguém falho. Tão ávido, no âmago, por tornar-se melhor quando nossa própria disposição para tentá-lo. E que admita isso sem nenhum constrangimento. A perfeição há de bastar-se em si. O amor, ao contrário, filho da miséria mantém-se sempre refém do doar-se, adaptar-se, entregar-se. Um mergulho de cabeça nas profundezas da alteridade. E é somente nisso que podemos sentirmo-nos verdadeiramente vivos no infinito do instante.

RUÍDO

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Algumas vezes afirmaram-me ser diferente
o verso agasalhado em minha linha.
Por desconhecer reações, tomo o elogio
em mãos como um peixe.

Sonho a beleza incômoda
de bastar-me miúdo.

Mas não, sem antes desabarem sobre mim
todas as pragas egípcias: que valor terão
esses pobres traços em décadas?
Serei poeta apenas com a palavra
talhada em insuficiência?
Que definirá esse ruído, em meio
aos ecos de Hesíodo produzidos
aos baldes?

Nada sou que não sejam outros milhares.
Outros melhores.

Eu homem não-título investindo
Contra a vida à qual sigo
estrangeiro.

AUGUSTIANDO

SOLIDI(Imagem: Solidão – Didier Fay-Keller – 1989)

I.
Alimento-a solidão, supro-a de
expectativas tantas.
Nenhuma pretensão senão
arrancar pela raiz
das ideias o amor,
o amor,
o amor essa
odisseia.

II.
Sei-me castigado pela musa,
com seu beijo lento de
querer insaciável.
Força-me a palavra
sempre inexata,
existência fracionada,
opção-última,
inefável.

III.
Somente aqui, deitado em verso,
faço de mim alguém merecedor
de afeto.
No rosto o beijo escarrado
do mundo — na palavra
um único afago
indiscreto.

ÂNIMO

p/ Gabriela Souza

Perdura-se o choque. Pele a pele,
o constante arrepio apaixonado.
À flor da pele, apenas o toque,
nenhuma poesia senão o próprio
encontro dos corpos,
sublime colosso —
fio condutor de todo
esse alvoroço.

FLUXOGRAMA

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O poema é tão simples quanto a vida
Não tem sentido.
Alguma intuição, impulso,
fio-condutor pressentido.
Depois,
depois o corte abrupto
— como se nunca
antes havido.

PENÚRIA

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Despidas as máscaras,
o riso obsceno é
sempre o mesmo.
Nenhum festejar
a esmo – sopro,
lira, cítara esconde
a tácita verdade
das entrelinhas:
tateia-se superfícies,
nenhum coração
assombrado
aninha-se.

NONSENSE

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O caldeirão borbulha ininterrupto.
Como esquete do Monty Phyton
qualquer boa imagem termina
num abrupto corte.

Os espectadores mantidos reféns
da eterna promessa de poda na raiz
assistem vidrados à espera
do punchline.

E sobra somente o riso enrijecido.

Riso desesperado de quem já não
reconhece os seus motivos,
mas sente esse impulso.

Uma fome imensurável de compreensão:
desconhecer exatamente em qual ato
terminará queimado o
próprio rosto.

QUIMERA

despercebido, Lesley Oldaker, óleo sobre a tela

(Imagem: Despercebido, Lesley Oldaker, óleo sobre tela, 2018)

I.
Nenhuma palavra simboliza-me
melhor que em sonhos
os seus olhos.
Os sonhos nos quais se embalam
os dias & fazem meus pés
arriscarem passos por
impulso próprio, contra
minha vontade, numa
melodia inaudível
– o sonho
impossível.

II.
Persigo-a assim, onírica.
Imagem à qual eu possa
cercar por doces palavras
para aliviar o choque.
Onírica, eterna projeção
a evaporar-se instantânea
na tentativa do toque.

III.
Convido-na, solidão, para esta valsa.
Dou-lhe todas minhas tripas,
escancaro-me.

Dança sobre este falso verso triste,
enquanto confesso alguma
dor mesquinha.

Convido-na, solidão, para esta valsa.
Além dos olhos-fábulas e do poema
que se aninha.

Convido-na, solidão, por ser tão
sempre minha.

BICHO DE SETE CABEÇAS

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Muitas das vezes penso
em falar de Deus.
Mas não cabem-me
as liturgias.
Retrato-me com os
versos de Adélia Prado
e sigo meu próprio
destino.

Quando em quando
sinto o impulso de
auto-digladiação
e digo: Adília tem
mesmo razão, com
fogo não se brinca.

– criado o personagem
vem a assinatura:
Adília Prado.

Este monstro de
várias cabeças
sem qualquer
sentença.

ARRIMO

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Um vocábulo por si mesmo é incapaz
de sustentar-se, Pietro.

Veja bem: pedra.

Assim ao léu, pedra não diz nada,
pode conter qualquer simbolismo
pedra não-atirada.

A gramática como acessório de luxo
da transitoriedade,
título nenhum impede
o fluxo,
nenhum nome
salva-nos da nossa
banalidade.