PALINGENESIA

depositphotos_42170947-stock-photo-hand-with-butterfly-in-sky

Tornar-me digno das palavras
de algum futuro Heródoto
e deixá-lo empilhando ossos
sem datação exata.

Aceitar de bom grado perder
poemas um a um…

Como quem, por iluminação,
reconhece a necessidade vital
das borboletas em alçarem-se
depois de pousadas
nos dedos.

GRATIDÃO


Platão-post-700x400.pngNum conto Voltaire narra a pequena afronta de
um discípulo de Platão insinuando-o sonhador.
O mundo das ideias talvez seja metafísico em demasia.
Digo: quem se dá ao luxo
de procurar pérolas além da casca?
Diógenes, o cão, num ato bélico atirou contra
a Academia de Platão um frango depenado.
Seria mesmo o bípede semelhante ao homem?
A zombaria recaiu sobre grandes gênios.
A minha, meu Deus, como poeta,
ao menos é merecida.

AFORISMOS

Figura-6-A-morte-de-Socrates-Jacques-Louis-David-1787-Oleo-sobre-tela-129-196-cm.png(A morte de Sócrates. Jacques-Louis David)

I.
Existem ideias realmente tentadoras nas quais nossas amarras morais parecem afrouxar. Os ursos negros, por exemplo, hibernam de cinco a sete meses por ano. A ideia de seguir o processo, porém, apenas inviabiliza-se na localização de sua origem; os Estados Unidos. Arthur, como se sabe, significa “grande urso”, e quando alguém com longos dedos aponta os riscos de começar a beber as nove da manhã, a resposta surge categórica: em algum lugar da Ásia já são nove da noite. Conquanto seja fato irrefutável a questão do horário, digamos, no Japão; até mesmo o anseio por dominar a arte do sono sucumbe por transtornos meramente geográficos. Ou de batismo. Sem nenhum outro dom assegurado resta uma espécie de traição por parte do Esopo. Afinal, numa das fábulas afirma-se, com todas as letras: não há ninguém completamente desamparado de natureza e sem graça particular. Embora eu carregue alguma maestria em inutilidade.

II.
Nietzsche afirmou existir um juízo característico de negação do valor da vida em todos os sábios. Ora, se minha experiência corrobora com algo, certamente é isso. A intelectualidade parece-me uma festança no Olimpo. E eu, pobre penúria, longínquo, circundo os portões atrás das migalhas. Mas sei que sei raciocinar. Hoje mesmo já havia, com antecedência, por exemplo, pensado em almoçar. Não somente na ação, mas também nos seus: arroz, feijão, purê de batata e filé de frango. Veja bem, escapa-me a familiaridade sobre o pensamento de Nietzsche em relação à filés de frango, entretanto ponho-me confortavelmente favorável. O grande problema de Sócrates, a amarra na melancolia; talvez previsse os seus instantes finais, o grande equívoco no pedido derradeiro: ofertar um galo para o deus Asclépio ao invés de saboreá-lo.

UM OUTRO DEUS PARA O CONTO

 

atumblr_lo1sxrauow1qexo6uo1_500_large

As travessias entre grandes eras sempre foram rasgadas por marcos. Algum acontecimento prodigioso capaz de nos arrebatar ao âmago, tornando clara a mesquinhes de muitos vícios e fazendo necessária a reflexão sobre uma mudança brusca, intensa e imediata. E até os dias atuais alimentamo-nos desse desejo; seja quando esperamos a volta do Messias, o contato imediato com seres de outros planetas, ou mesmo as ruas sendo tomadas por zumbis.

Uma era cedeu lugar a outra de maneira despretensiosa.

E não fomos capazes de enxergar essa evidente e incontestável verdade estacionada diante nossos olhos feito um poste.

O instante exato do ocorrido foi: o mertiolate deixou sua função educadora de arder, passando para outra – bem menos eficiente – de afago.

Cléber, aquela altura, acreditava piamente estar habitando uma anedota.

Insistia em procurar argumentos para sustentar a sua tese. Corria atrás dos mais fatídicos fatos do cotidiano, na busca de encontrar uma correlação entre os mais bizarros pormenores. Conseguira traçar uma teia repleta de acontecimentos fortuitos, aparentemente díspares, mas com uma ligação intrínseca da qual ninguém jamais fora capaz de explicar.

Vivia sobre o tênue, sopesando da genialidade à falta de parafusos.

— O mertiolate fodeu com tudo. Antes, quando queimava, eu jamais teria tempo para chegar até aqui. Precisaria de longos períodos assoprando a pele.

— Deixe-me ver se compreendi. – Laís, sua noiva, puxava o dedo indicador com tanta força parecendo querer arrancá-lo – Você está justificando as infantilidades, este erro absurdo, com uma desculpa esfarrapada dessas?! Vá para o inferno!

— Inferno… – encarou a parede branca com marcas de pés – O que é o inferno? Seria viver num conto? De fadas ou não, bem escrito ou…

— Eu… – respirou fundo – Cala essa tua boca, cala. Juro que eu vou dar na sua cara se vier com essa maluquice de sermos personagens de um conto do Luís Fernando Veríssimo.

— A Terra é…

— Escuta bem. – interrompeu mais uma vez – Acaso esta merda fosse um conto do Veríssimo, considerando essa sua loucura, não seria mertiolate o divisor de eras. Teria alguma tirada de humor bem sacada. A vida é mesmo um porre e a gente tem de aceitar isso.

— Você não vê… – Cléber aproximou a mão em seu rosto – Não vê como cada mísero detalhe nos aproxima mais do nosso destino. Quando por impulso decidimos mudar direções. Ir pela calçada direita ao invés da esquerda. Calçar os chinelos e não o tênis. Tudo isso tem um motivo.

— E qual é? – gritou – Está me enlouquecendo com essa paranoia. Tornou-se um desvairado.

— Eu sei lá… – recuou-se repentinamente – Tenho medo de descobrir.

— Nada do que diz tem o menor sentido.

— Pode ser essa a questão. A vida, talvez, deva ser…

Cléber deixou a frase no ar pela metade, correndo em direção ao espelho mais próximo.

Analisando-se centímetro a centímetro. Parágrafo a parágrafo. Frase a frase. Sílaba a sílaba. Esfarelando-se paulatinamente, átomo por átomo, até testemunhar-se tinta de caneta selando o ponto final antes de um elegante L maiúsculo ser interrompido, com um sopro, uma brisa leve na mão que ardia.