SAGRADO

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Aos nove anos nenhum dos grandes questionamentos da humanidade importa. Muito embora a proximidade da mudança de milênio deixasse visível certo pânico no ar. Dois mil e, atarracado à ele, o armagedon.

Por isso, o riso deveria ser sagrado. Era inconcebível para minha cabeça adultos desperdiçando-os em ocasiões frívolas, como numa roda de amigos onde ninguém estava a cair. A gargalhada proferida sem tombos no raio de visão é desperdício. Toda criança carrega tal sabedoria. Há ligação intrínseca entre os músculos esborrachando-se ao chão e a boca fazendo o movimento de orelha a orelha.

Senti-me provedor do fogo: pessoas grandes desconheciam a premissa mais básica sobre existir. Observava-os em caráter de julgamento procurando sinais de lucidez. E nada. Sob as caudas das frases aleatórias surgiam eles, os sorrisos, sempre deslocados. Nada de trombadas, tropeções. Todos a ostentar equilíbrio.

Curiosidade aguçada: o que havia de engraçado? Teria eu, tão observador, deixado escapar algo? Qualquer investigador de nove anos que se preze, tendo em mente os bons manuais de inquirição antes dos dez (normalmente vistos na televisão); atenta-se aos detalhes, ao frívolo.

Arrastado por inúmeros lugares acorrentado aos adultos, eu observava suas roupas, traços, trejeitos. Até a tarde mais cinzenta de mil novecentos e noventa e nove, enquanto submerso na análise, tropeçar, por descuido, em meus cadarços e cair de cara no chão defronte com a plateia mais implacável existente: outras crianças.

Dedos apontados e zombarias histéricas.

Por um longo período não quis mais saber de risos. Nem de nada. Queria a chegada do réveillon. O mundo terminar soava menos assustador que conviver com a lembrança.

MÍMICA

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Anterior ao desejo desenfreado de autenticidade encontra-se o tempo sombrio da busca por aceitação. Naquele início de milênio, porém, todo meu conhecimento resumia-se a um bairro e uma escola. Incapaz de assimilar o significado da palavra genuíno.

Entre as disputadas partidas de futebol pela rua, dedos perdendo o tampão, colocava-me observando as minucias dos gestos daqueles colegas dos quais as meninas demonstravam algum apreço. Raridade em meio aquele ciclo de amizades. Mas eu precisava descobrir uma forma de agradar. Obviamente, distante do roer unhas, gaguejar e permanecer avermelhado num estado de riso idiota de total incompreensão.

Fosse como fosse, o charme deveria poder ser aprendido. Testemunhava deslumbrado, diálogos complexos sobre festinhas, encontros para assistir filmes em vídeo cassete, cumprimentos com beijinhos no rosto. O enigmático mundo além do alcance. E sonhava receber o convite que mudaria a vida miserável de rejeição.

Repetia siglas indecifráveis, como cdf ou bv, estufando o peito e tentando demonstrar uma confiança inexistente. Embora enturmasse com os populares, usufruísse da mímica, tudo desmoronava no menor questionamento. O plano minucioso para conquistar as mais gatas da quinta série empacava num detalhe ínfimo: eu ainda era eu. E elas faziam questão de apontar para este fato.

FLASH

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Missas são eventos aguardados na infância interiorana. Conquanto alguém recém saído da fralda dificilmente exale qualquer religiosidade. Mas passeios pelo centro da cidade tendem a acontecer com rareza. Por isso a necessidade de atos solenes para apresentação de grandes dons naturais, como por exemplo, chutar latinhas em praça pública.

O fenômeno funciona descomplicado há décadas. Crianças do lado de fora da igreja correndo desesperadamente como se o mundo fosse acabar. E pais do lado de dentro fingindo arrependimento pelo mesmo motivo.

Acontece, porém, dissidências bélicas quando reunidos muitos deles num único ambiente: qualquer gesto descamba para o conflito. Ainda mais em discussões de vida ou morte como “quem está no pega?”.

Magricelas feito eu carregavam função específica – já inerente ao arquétipo – de bode expiatório. Canalizar a frustração dos rebentos maiores no próprio corpo com toda a delicadeza gerada através de socos e pontapés.

Contudo, havia certo distúrbio na força. Motivado pelo ódio (esse poder primevo a nos mover desde os tempos imemoriais) revidei, na cautela de escolher outro menor. A satisfação pessoal ruiu na primeira lágrima escorrida em seu rosto.

Arquitetado em segundos o necessário plano de fuga – o plano infalível – dei passos. Acelerando-os mais e mais. Até voltar a correr. Correr, correr, correr. Tornando-me apenas um borrão indiscernível. Depois de cinco voltas completas pela igreja, julgando estar em segurança, estacionei. Ainda na primeira inspiração ofegante o dedo em riste pontou sobre meu rosto. A mãe do menino e um sermão de insultos bíblicos.

EXATIDÃO

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Nessas tantas de nos fazermos múltiplos, detalhes vão escapando, pois os fios da memória esgarçam-se instantâneos e flutuam sem direção no abismo das ações abandonadas. Contudo, vez ou outra, ressurgem imagens vívidas diante os olhos, como se sopradas por alguma entidade e cai sobre nós a sensação de recolher emoções remotas nas mãos.

Por exemplo, dei-me conta dia desses: já fui extremamente alfabetizado nos números. Sabia-os em grande escala (graças a paixão futebolística e a numeração estampada pelas camisetas), proporção maior que outros alunos do Jardim I. A professora Maria Ivone ensinava-nos do um ao nove, mas apenas eu conseguia ir além das unidades. Caminhava sobre onde as dezenas surgiam belas, impávidas. No desabrochar dos algarismos siameses.

Demonstrar-me súbito gerou certa perplexidade, discutiu-se caminhos para evitar balbúrdias, potenciais transtornos, até sugerir-se o encaminhamento a uma profissional para possível aprovação de progressão imediata. Dos incontáveis testes não lembro de nada. Apenas trago comigo a imagem da sala cercada por vidros, o sofá preto e a psicóloga deslizando sua caneta com frequência enquanto balançava a cabeça de modo condenatório.

No dia seguinte, completamente despreparado, terminei conduzido ao Jardim II. Lá estava eu entre os gigantes alunos de cinco anos. Qualquer reação deveria ser pesada em minúcias, infortúnios poderiam marcar a vida escolar para sempre. Ou, pelo menos, enquanto no pré-primário. Minha resposta foi coerente com a coragem existente em mim: chorei. Choro de soluçar até ser devolvido ao lugar de origem. Aonde todo mundo tinha quatro anos e contava até nove. Nasceu aí a desilusão matemática.

Os gatilhos das lembranças são irônicos; esta mesmo reluziu sobre mim através do reflexo de Clarice Lispector, num relato sacro sobre a sua infância também precoce. Não tão aritmética assim. Embora ambos, frequentemente, multiplicássemos lágrimas.

ASSOMBRAÇÃO

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Ouvir conversas adultas quando desautorizadas sempre foi dos grandes dons inerente ao dna da criança. Amedrontar-se com esses mesmos relatos, sem sombra de dúvidas, o maior.

Nessas elucubrações proibidas, cujo o impedimento apenas motiva ainda mais encontrar meios de burlá-lo; minha mãe narrou sobre uma mão surgida do chão chamando-a. Cinco dedos flutuantes de unhas feitas fazendo o movimento – sabe-se lá como – pedindo aproximação. Minha mãe, dentro da coerência esperada, afastou-se o máximo possível. Tremendo.

Foi chocante. Primeiro me dar conta da incrível durabilidade desse esmalte, post-mortem, de eficácia comprovada. Embora eu não pudesse precisar a pré-existência de testes em pias entupidas de louças. Mas tratava-se da mãe. E mães não tem permissão para mentir. Essa prerrogativa está autenticada em sete vias no cartório celestial. Qualquer pequenino de três anos já tem consciência disso. Quanto mais eu, no auge dos meus sete anos, pronto para guerrear contra extraterrestres.

Porque dos medos colossais, apenas a ideia de fantasmas fazia-me paralisar, ainda mais sendo apenas a mão de uma mulher. Como determinar canhota ou destra? Mesmo eu tendo outras obrigações, como defender as pessoas dos alienígenas, a reflexão metafísica sobre a ação da retirada das cutículas fazia-se necessária.

Os marcianos poderiam estar próximos, bem verdade. Porém, toda noite punha-me em guarda na cama, entre o pai e a mãe, observando o vitrô, procurando qualquer mínimo sinal avermelhado (luzes de disco-voadores são sabidamente vermelhas por algum motivo: combustível ou apenas para facilitar a visualização dos nativos.) E nada.

Seres provenientes de outros planetas têm pequeno porte. Eu poderia encará-los. Agora convites de mãos aleatórias ficavam em outro departamento.

Então, naquele anoitecer me coloquei mais cedo na cama, com dois cobertores, acaso surgisse a necessidade de defesa mais incisiva como, por exemplo, cobrir a cabeça.

Infelizmente, a invasão nas horas subsequentes, faria o planeta perder um de seus guerreiros. Entretanto, segurança em primeiro lugar. E ao que parece deu tudo certo. A Terra permanece intacta. Virgem de visitas alienígenas. Exceto se considerar o testemunho das vacas.

HANDICAP

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Nada sabia à época sobre realidade espelhada. Exceto a existência da Ásia: terra do contrário. Os atlas da aula de geografia, porém, maquiavam informações tornando-o idêntico aos demais continentes. Mas em nenhum outro lugar – dedução espontânea – o sol punha-se a pino em plena madrugada.

A Copa do Mundo confirmava minhas hipóteses ao me obrigar acordar ainda dentro da escuridão para assistir os jogos.

Ali próximo as oitavas de finais, a professora de educação física (também suspeita no grande complô) sugeriu um bolão da quinta série A. Bastando conduzir os vencedores até os lugares mais altos do pódio.

Um inveterado apaixonado por futebol de onze anos como eu, dono da capacidade cognitiva de enxergar as migalhas da grande conspiração – toda a dificuldade de se colorir mapas – jamais sucumbiria ao senso-comum.

Abstraído, em transe mediúnico, convencido da nitidez do fato, iniciei meu exercício de futurólogo mergulhado na verdade absoluta contida nos ancestrais ensinamentos do oriente (os quais desconhecia): sorteei os vencedores como abrindo biscoitos da sorte. E deu Coréia do Sul. O sinal celestial da aposta certeira.

Marquei, peito estufado, o lance mais ousado contra corrente de pensamento vigente no primeiro ano de Ensino Fundamental II. Exercício de epifania: para marcar geração na escola Ivan Brasil seria assim. Jogando alto. E na direção contrária ao vento. Sempre. Muito embora minha formação chegasse anônima.

NEURA

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Naquela manhã acordei sentindo-me apto a incursionar na literatura. Havia lido um volume bastante razoável sobre animais em risco de extinção, mais ou menos duas metades de artigos em blogs, deixando minha mente em completa profusão. A inspiração avizinhava-me querendo espaço, embora tivesse pouca familiaridade com Uacari-Branco ou Udu-de-Coroa-Azul, conhecia a predileção de Douglas Adams por bichinhos nessas condições e todo o mundo apreciava seus livros. Além do mais, vira recentemente dois vídeos longos, quase três minutos cada, sobre o Oumuamua e passei a considerar muito plausível, dadas as pesquisas em sites conspiratórios extremamente confiáveis, a ideia de se tratar de um artefato alienígena.

Meus lábios mal terminaram de proferir Barnard, Lara já se percebia alheia ao assunto. Por vir, uma enxurrada de referências astronômicas, com datação imprecisa e repleta de detalhes intermináveis. Há tempos parecíamos viver distantes, por ironia, em pontos ínfimos do cosmo. Ou da sanidade. Qualquer tentativa de aproximação sucumbia à relatividade.

Ou realidade.

— A segunda estrela mais próxima da nossa; apenas Alfa Centauro encontra-se entre ambas. Quando criança – prosseguia com empolgação – pensava as estrelas de outra maneira, corpos celestes distintos ao Sol, aqueles pequenos cubinhos brancos grudados ao céu semelhantes aos desenhos das aulas de artes, com pontas e tudo mais.

— Você tem uma obsessão pelo céu, né? – escolheu as palavras – Acredita ser capaz de compor algo relevante?

— Creio ser uma maneira eficiente de suscitar perspectiva. – refleti instantes sobre o questionamento – Qualquer idiota faz ficção.

— Perspectiva sobre?

— Uma das questões fundamentais: a existência de modo geral. O infinito tem o poder de nos jogar às traças. Que significa o homem em escala cósmica? Micróbios?! Então, resta-nos aceitar a insignificância de sermos essa coisa meio amorfa.

— E isso não tornaria todo o resto total perda de tempo?

— Claro.

— E qual a necessidade de escrever sobre animais de estimação voando em naves estelares?

— Surrealismo.

Lara ameaçou elaborar uma resposta, desistiu. Lembrou-se da frase de sua mãe: com louco não se discute. O alerta específico de sua progenitora sobre o casamento, de maneira bem peculiar, também, ou principalmente, à escolha do cônjuge, ressoou sobre os tímpanos. Deu de ombros. Afinal, poderia justificar-se; a genialidade corre risco de descambar. E melhor alguém assim, meio paranoico, porém real, do que o homem perfeito preso dentro de telas. De mais a mais, amanhã a neurose seria outra, ninguém deseja padecer literando, eu hei de me meter com pintura ou escultura. Talvez até pintando o Uacari-Branco e o Udu-de-Coroa-Azul. Ou, aquele cara alto de nariz longo que tinha composto uma saga sem enlouquecer por completo.

AFORISMOS

Figura-6-A-morte-de-Socrates-Jacques-Louis-David-1787-Oleo-sobre-tela-129-196-cm.png(A morte de Sócrates. Jacques-Louis David)

I.
Existem ideias realmente tentadoras nas quais nossas amarras morais parecem afrouxar. Os ursos negros, por exemplo, hibernam de cinco a sete meses por ano. A ideia de seguir o processo, porém, apenas inviabiliza-se na localização de sua origem; os Estados Unidos. Arthur, como se sabe, significa “grande urso”, e quando alguém com longos dedos aponta os riscos de começar a beber as nove da manhã, a resposta surge categórica: em algum lugar da Ásia já são nove da noite. Conquanto seja fato irrefutável a questão do horário, digamos, no Japão; até mesmo o anseio por dominar a arte do sono sucumbe por transtornos meramente geográficos. Ou de batismo. Sem nenhum outro dom assegurado resta uma espécie de traição por parte do Esopo. Afinal, numa das fábulas afirma-se, com todas as letras: não há ninguém completamente desamparado de natureza e sem graça particular. Embora eu carregue alguma maestria em inutilidade.

II.
Nietzsche afirmou existir um juízo característico de negação do valor da vida em todos os sábios. Ora, se minha experiência corrobora com algo, certamente é isso. A intelectualidade parece-me uma festança no Olimpo. E eu, pobre penúria, longínquo, circundo os portões atrás das migalhas. Mas sei que sei raciocinar. Hoje mesmo já havia, com antecedência, por exemplo, pensado em almoçar. Não somente na ação, mas também nos seus: arroz, feijão, purê de batata e filé de frango. Veja bem, escapa-me a familiaridade sobre o pensamento de Nietzsche em relação à filés de frango, entretanto ponho-me confortavelmente favorável. O grande problema de Sócrates, a amarra na melancolia; talvez previsse os seus instantes finais, o grande equívoco no pedido derradeiro: ofertar um galo para o deus Asclépio ao invés de saboreá-lo.