BICHO DE SETE CABEÇAS

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Muitas das vezes penso
em falar de Deus.
Mas não cabem-me
as liturgias.
Retrato-me com os
versos de Adélia Prado
e sigo meu próprio
destino.

Quando em quando
sinto o impulso de
auto-digladiação
e digo: Adília tem
mesmo razão, com
fogo não se brinca.

– criado o personagem
vem a assinatura:
Adília Prado.

Este monstro de
várias cabeças
sem qualquer
sentença.

POEMINHA PARA ACOMPANHAR DOCUMENTÁRIOS SOBRE VIDA EXTRATERRESTRE

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p/ Gabriela Souza

Os olhos estrelados a
alimentar-me porosmose

Olhos-clarão cruzando
todo este sistema

O calor da sua sílaba
exata
vivifica corpo-infinito
do poema…

MAPA

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I.
Estender-me
pelos rastros
dos grãos,
erigir por este
abismo
até
circundar
o amor psi-quê
cismo…

II.
Esgarço as linhas
fronteiriças
dessa boca-eros
castiça

III.
nenhumelemento

as mãos
vazias
aqui & agora

nenhumalinha
nenhumazinha
nenhumaminha

a pena
à quilo

caixa de
pandora

valha-me
tamanha
demora

PALINGENESIA

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Tornar-me digno das palavras
de algum futuro Heródoto
e deixá-lo empilhando ossos
sem datação exata.

Aceitar de bom grado perder
poemas um a um…

Como quem, por iluminação,
reconhece a necessidade vital
das borboletas em alçarem-se
depois de pousadas
nos dedos.

ALVA

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p/ Gabriela Souza

1.
Tomo em mãos
esse combustível:

a leveza do seu
semblante,

sublime inequívoco,
graça indizível.

2.
Entre as nuvens
o teu riso
surge,

muito além
de simples
pareidolia.

Entre as nuvens
teu riso
transborda-me
noite e dia.

3.
Prometo-lhe
o gesto,

as simples
funções das
palavras

reconduzindo
todo resto.

GRATIDÃO


Platão-post-700x400.pngNum conto Voltaire narra a pequena afronta de
um discípulo de Platão insinuando-o sonhador.
O mundo das ideias talvez seja metafísico em demasia.
Digo: quem se dá ao luxo
de procurar pérolas além da casca?
Diógenes, o cão, num ato bélico atirou contra
a Academia de Platão um frango depenado.
Seria mesmo o bípede semelhante ao homem?
A zombaria recaiu sobre grandes gênios.
A minha, meu Deus, como poeta,
ao menos é merecida.

INSUFICIÊNCIA

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Eu conheço bem o que pensam,
sempre soube: minhas costas largas
carregam como fardo
mil chicotadas com línguas.
O desdém dos olhares aguçados
e os sorrisos distraindo-se
dos meus.

Sou incapaz de armar
absurda eloquência,
pois tudo que digo parece
sempre tão sem importância.
Parece com latir, grunhar.

E tudo que você pensa é:
alguém pelo amor de Deus
leia essa melancolia em braile.
Alguém pelo amor de Deus!

Tranca-se no casulo da poesia,
bebe gotícula a gotícula
cada dia mais satisfeito
em se trancafiar, ridículo,
refém das palavras.

Há desespero em se olhar no espelho
e enxergar-se cacos: você não sabe
exatamente o que é,
sem imagem a sustentar altares.
O homem na encruzilhada.
O Mito sempre prestes a ser.
Arquétipo: alvo pronto
para dedos apontados.

O rosto em carne viva
arde arde arde arde
arde toda vez que
voltam-se para si.

E tudo que você deseja
é a permissão da
providencia divina,
o milagre instantâneo
do antigo testamento,
tornar-se sal para
fundir-se em terra.

Até a matéria sucumbir,
até a matéria sucumbir,
até a matéria sucumbir…

Fundir-se pó estelar
desejando ardentemente
adubar outra existência
e tudo que pensa é:
alguém pelo amor de Deus
ordene o caos &
faça-me primevo além
desse buraco negro.