FLASH

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Missas são eventos aguardados na infância interiorana. Conquanto alguém recém saído da fralda dificilmente exale qualquer religiosidade. Mas passeios pelo centro da cidade tendem a acontecer com rareza. Por isso a necessidade de atos solenes para apresentação de grandes dons naturais, como por exemplo, chutar latinhas em praça pública.

O fenômeno funciona descomplicado há décadas. Crianças do lado de fora da igreja correndo desesperadamente como se o mundo fosse acabar. E pais do lado de dentro fingindo arrependimento pelo mesmo motivo.

Acontece, porém, dissidências bélicas quando reunidos muitos deles num único ambiente: qualquer gesto descamba para o conflito. Ainda mais em discussões de vida ou morte como “quem está no pega?”.

Magricelas feito eu carregavam função específica – já inerente ao arquétipo – de bode expiatório. Canalizar a frustração dos rebentos maiores no próprio corpo com toda a delicadeza gerada através de socos e pontapés.

Contudo, havia certo distúrbio na força. Motivado pelo ódio (esse poder primevo a nos mover desde os tempos imemoriais) revidei, na cautela de escolher outro menor. A satisfação pessoal ruiu na primeira lágrima escorrida em seu rosto.

Arquitetado em segundos o necessário plano de fuga – o plano infalível – dei passos. Acelerando-os mais e mais. Até voltar a correr. Correr, correr, correr. Tornando-me apenas um borrão indiscernível. Depois de cinco voltas completas pela igreja, julgando estar em segurança, estacionei. Ainda na primeira inspiração ofegante o dedo em riste pontou sobre meu rosto. A mãe do menino e um sermão de insultos bíblicos.

CASA DE APOSTAS

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Nada sabia à época sobre realidade espelhada. Exceto a existência da Ásia: terra do contrário. Os atlas da aula de geografia, porém, maquiavam informações tornando-o idêntico aos demais continentes. Mas em nenhum outro lugar – dedução espontânea – o sol punha-se a pino em plena madrugada.

A Copa do Mundo confirmava minhas hipóteses ao me obrigar acordar ainda dentro da escuridão para assistir os jogos.

Ali próximo as oitavas de finais, a professora de educação física (também suspeita no grande complô) sugeriu um bolão da quinta série A. Bastando conduzir os vencedores até os lugares mais altos do pódio.

Um inveterado apaixonado por futebol de onze anos como eu, dono da capacidade cognitiva de enxergar as migalhas da grande conspiração – toda a dificuldade de se colorir mapas – jamais sucumbiria ao senso-comum.

Abstraído, em transe mediúnico, convencido da nitidez do fato, iniciei meu exercício de futurólogo mergulhado na verdade absoluta contida nos ancestrais ensinamentos do oriente (os quais desconhecia): sorteei os vencedores como abrindo biscoitos da sorte. E deu Coréia do Sul. O sinal celestial da aposta certeira.

Marquei, peito estufado, o lance mais ousado contra corrente de pensamento vigente no primeiro ano de Ensino Fundamental II. Exercício de epifania: para marcar geração na escola Ivan Brasil seria assim. Jogando alto. E na direção contrária ao vento. Sempre. Muito embora minha formação chegasse anônima.