TRAQUEJO

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Antigamente acreditava no beijo certeiro do destino. Dentro do peito todos os clichês existentes. Precipitava-me crendo na possibilidade de um amor bobinho, genérico. E assim dava vazão às frustrações.

A vida ensinou-me, com a delicadeza de um rolo compressor; limpas as areias da automatização, é possível palpar rumos.

Desde então travo a batalha diária com a desconstrução de expectativas: mereço o outro apenas como pode ser. Carne e osso. Construído através de tentativa e erro. Longe da figura onírica, o rosto amorfo da perfeição inalcançável.

O inebriar verdadeiro, maduro, transcende qualquer áurea de ilusória grandeza. Quer-se alguém falho. Tão ávido, no âmago, por tornar-se melhor quando nossa própria disposição para tentá-lo. E que admita isso sem nenhum constrangimento. A perfeição há de bastar-se em si. O amor, ao contrário, filho da miséria mantém-se sempre refém do doar-se, adaptar-se, entregar-se. Um mergulho de cabeça nas profundezas da alteridade. E é somente nisso que podemos sentirmo-nos verdadeiramente vivos no infinito do instante.

NARRATIVA

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Gustav Vigeland. Eros e Psique (1908)

I.
Busquei o equívoco: igual outros quis
glórias patéticas, como se qualquer
paixão fosse ponto de unidade.
Por sorte soube apenas do
caminho deflagrando-me
degredo, alteridade.

II.
Não cabem-me nos dedos
os amores platônicos.
Venero apenas esse
desejo desenfreado:
amar por amar
sem ensejar
ser amado.

III.
A incompletude é minha única glória.
Verdade à qual habito.
De todo amor narrado,
medito arestas arquetípicas,
retiro apenas as lições
do mito.

MÍMICA

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Anterior ao desejo desenfreado de autenticidade encontra-se o tempo sombrio da busca por aceitação. Naquele início de milênio, porém, todo meu conhecimento resumia-se a um bairro e uma escola. Incapaz de assimilar o significado da palavra genuíno.

Entre as disputadas partidas de futebol pela rua, dedos perdendo o tampão, colocava-me observando as minucias dos gestos daqueles colegas dos quais as meninas demonstravam algum apreço. Raridade em meio aquele ciclo de amizades. Mas eu precisava descobrir uma forma de agradar. Obviamente, distante do roer unhas, gaguejar e permanecer avermelhado num estado de riso idiota de total incompreensão.

Fosse como fosse, o charme deveria poder ser aprendido. Testemunhava deslumbrado, diálogos complexos sobre festinhas, encontros para assistir filmes em vídeo cassete, cumprimentos com beijinhos no rosto. O enigmático mundo além do alcance. E sonhava receber o convite que mudaria a vida miserável de rejeição.

Repetia siglas indecifráveis, como cdf ou bv, estufando o peito e tentando demonstrar uma confiança inexistente. Embora enturmasse com os populares, usufruísse da mímica, tudo desmoronava no menor questionamento. O plano minucioso para conquistar as mais gatas da quinta série empacava num detalhe ínfimo: eu ainda era eu. E elas faziam questão de apontar para este fato.

INSUFICIÊNCIA

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Eu conheço bem o que pensam,
sempre soube: minhas costas largas
carregam como fardo
mil chicotadas com línguas.
O desdém dos olhares aguçados
e os sorrisos distraindo-se
dos meus.

Sou incapaz de armar
absurda eloquência,
pois tudo que digo parece
sempre tão sem importância.
Parece com latir, grunhar.

E tudo que você pensa é:
alguém pelo amor de Deus
leia essa melancolia em braile.
Alguém pelo amor de Deus!

Tranca-se no casulo da poesia,
bebe gotícula a gotícula
cada dia mais satisfeito
em se trancafiar, ridículo,
refém das palavras.

Há desespero em se olhar no espelho
e enxergar-se cacos: você não sabe
exatamente o que é,
sem imagem a sustentar altares.
O homem na encruzilhada.
O Mito sempre prestes a ser.
Arquétipo: alvo pronto
para dedos apontados.

O rosto em carne viva
arde arde arde arde
arde toda vez que
voltam-se para si.

E tudo que você deseja
é a permissão da
providencia divina,
o milagre instantâneo
do antigo testamento,
tornar-se sal para
fundir-se em terra.

Até a matéria sucumbir,
até a matéria sucumbir,
até a matéria sucumbir…

Fundir-se pó estelar
desejando ardentemente
adubar outra existência
e tudo que pensa é:
alguém pelo amor de Deus
ordene o caos &
faça-me primevo além
desse buraco negro.